Blog do André Gravatá

De cima pra baixo, só aceito chuva!
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André Gravatá

Aqueles amigos costumavam brincar mais de Escola do que de Esconde-Esconde.

Na brincadeira Escola, simulavam salas de aula com professores na frente de lousas imaginárias e alunos sentados em carteiras imaginárias. Até que uma criança pediu a atenção de todos e propôs outra brincadeira:

– Hoje quero brincar de Medida Provisória!

– Que que é isso?

– A Medida Provisória muda as regras!

– Quê???!!!!!!

– Vim mostrar que estou aqui! E que precisamos mudar rápido, não dá pra esperar!

– Você veio consultar a gente pra mudar o jogo, é isso?

– Não, a intenção é mudar o jogo agora, pois já consultei vocês!

– Quando???

– Falei com alguns aqui.

– Ah, tá, sei. Só pra lembrar: você não tá no jogo Ditadura ou naquele outro… como se chama mesmo? Ah, sim, aquele jogo idiota que ficou conhecido como Fingir Que O Outro Não Existe. Agora estamos jogando Escola. Sabemos que é um jogo antigo, um tanto chato, precisa de mudanças. E há quem já esteja experimentando novos combinados. Não tem sentido mudar o jogo Escola com base na brincadeira A Autoridade Mandou!

– Acha que a gente vai fazer o que você quer só porque você quer? – diz outra criança.

– Sim.

– Quais regras você quer mudar? – questiona uma criança na primeira fileira de carteiras imaginárias.

A resposta dura 13 páginas. Aumenta o burburinho.

– O que você fala confunde a gente! – exclama uma menina que ouviu cada palavra com atenção – Mesmo embaralhando o pensamento, você quer fingir que veio pra organizar? Não sabe brincar de Clareza na Comunicação ou do jogo Consistência? Você falou falou falou e não consegui entender se na Escola ainda são obrigatórias ou não as partidas de Educação Física e Artes! Vai brincar de Confusão com outros!

– Boa proposta! – grita uma criança com rosto curioso – Estava na hora de alterar os combinados da Escola! Nunca havia brecha pra essa pauta de mudança no curto prazo, o assunto pede urgência!

Outros se pronunciam, cada vez mais agitados:

– Sério que há quem aprove a mudança? Acha mesmo que dá pra entrar na brincadeira Escola com decisão de cima pra baixo? Se quer jogar Mestre Mandou, fala logo! Sua vontade é brincar de Precarização e Aumento das Desigualdades!

– De cima pra baixo, só aceito chuva! De cima pra baixo, só aceito chuva! – cantarolaram algumas crianças ao mesmo tempo, repetindo um verso que inventaram durante a brincadeira Música.

– Você pretende que a gente perca a noção de prioridades! Quero ver você ter coragem de mudar as regras de outra brincadeira, aquela chamada Privilégios! Vá, vá!

– Pra mudar o jogo Escola, tem que jogar Diálogo! Me escute!

 


Verbos para conjugar no espaço público
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André Gravatá

[ EU/TU/ELX/NÓS/VÓS/ELXS { … } NO ESPAÇO PÚBLICO ]

{APARECER} Para marcar território no espaço físico e no imaginário social.

{CAMINHAR} Para arejar os pensamentos.
*e insistentemente desdomesticá-los.

{DANÇAR} Para acordar a intimidade com o corpo.

{BRINCAR} Para o encantamento passear.

{DESENHAR} Para inventar novos contornos sobre os já existentes.

{PRESENTEAR} Para regar inesperados nos desconhecidos.

{DEVAGARANDAR} Para respirar.

{DESOBEDECER} Para relembrar que tudo é invenção e algumas invenções são péssimas.

{LUPAR} Para prestar atenção em poços de significados escondidos.

{PENSOLARAR} Para desconstruir crenças rasas.
*pensolarar é quando a pessoa deixa raios e trovões de sol derreterem calotas de pensamento parado.

{CANTAR} Para mostrar que a voz dança.
*e chamar a voz do outrx pra dançar é poesia.

{ESVAZIAR} Para que, sem excessos, nossa presença seja um respiro pro outrx.

*este pequeno dicionário nasceu do encontro de dois instantes: a vivência da organização da Virada Educação Centro de SP, cujas atividades públicas acontecem até o dia 20 de agosto em espaços abertos pela cidade; e uma fala da educadora argentina Chiqui González, ministra de inovação e cultura da região de Santa Fé, sobre ''aparecer'' e ''rebelar-se'' como verbos para conjugarmos no espaço público.


Poesia não é para almas elevadas, mas sim para almas levadas
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André Gravatá

Um dia entreguei uma poesia de presente para uma diretora de escola. Eram versos do querido Manoel de Barros sobre a importância das insignificâncias. A diretora leu a poesia e disse que na escola dela aquele tipo de texto não chamava atenção, que poesia é apenas para almas elevadas. Não consegui respondê-la direito, mas aquela frase ficou na minha cabeça. Poesia é para almas elevadas? Poesia é para almas elevadas?

Até que um dia a frase que virou pergunta se tornou um poema, uma resposta tardia à diretora: Poesia é para almas levadas. Claro! Poesia não é para almas elevadas, mas sim para almas levadas. Para almas que dançam, capazes de se sensibilizar com o que há de mais comum, artesãs da arte de respirar com a pele inteira e pegar na voz do sol.

Esse encontro com a diretora volta e meia se senta à entrada da memória, fica por lá fisgando minha atenção. Assim como uma outra conversa, com o amigo e poeta Nicolas Behr, que um dia visitou uma escola onde as crianças queriam se certificar que ele realmente era um poeta. Na imaginação delas, todos os poetas estavam mortos, então encontrar um representante desta arte ainda vivo era fato extraordinário.

Afastamos a poesia do cotidiano. Mas ela não se afastou de nós, continua bem embaixo do nariz.

Porque poesia não é apenas poema, frase com palavra rebuscada, que rodopia na mente, que rima. Poesia é atenção às insignificâncias, como tão bem nos ensinou Manoel de Barros. Poesia é estranhamento com o familiar. Poesia é espanto que transforma a gente em nascente, encanto que deixa olhar igual caleidoscópio. Se não há percepção de poesia no cotidiano, nossa sensibilidade vira asfalto e nos tornamos mais pobres.

A habilidade do estranhamento com o habitual nos mantém acordados. Senão a flor da pele murcha, o sangue perde cor, tudo vira botão pra apertar, horário para cumprir, chão pra correr.

A beleza da poesia tem a ver também com sua família: ela é parente da leveza. Mesmo quando o espanto que a poesia nos traz abre as cortinas das tragédias e nos faz percebê-las com doloroso pesar, ainda assim a poesia nos deixa respirar. A poesia nos convida a respirar. Num mundo em que o sufocamento é hábito, respirar fundo e pausadamente se torna um ato de desobediência e resgate da sensibilidade.

Para aproximar poesia e educação é essencial ver que a poesia convida a educação a respirar novos ares. Resgatar a poesia no cotidiano e na escola não se faz apenas recitando Manoel de Barros de manhã, tarde e noite. O estado de poesia depende de um corpo poético, que descobre constantemente lugares para olhar com atenção, para levar o estranhamento e o encantamento em passeios.

*Para explorar São Paulo poeticamente, de mãos dadas com a educação, convido vocês a participarem de um projeto que tenho a alegria de compor desde 2014, junto com uma série de pessoas que admiro e que me inspiram muito, chamado Virada Educação. A abertura pública da Virada Educação Centro de SP 2016 acontece hoje, dia 17 de agosto, às 19h, com ponto de encontro na Praça da República. Seguiremos em cortejo, almas levadas pelas ruas com o grupo Ilú Obá de Min (mais detalhes do convite por aqui). É um momento para ocupar o espaço público e o corpo com música, movimento, infância & cor. Em seguida, entre os dias 18-20 de agosto, acontecem mais de cem atividades gratuitas em vários espaços do centro de São Paulo (programação completa aqui).

 

 


Por que é importante votar contra o Escola Sem Partido?
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André Gravatá

O Senado Federal abriu uma consulta pública sobre o Programa Escola Sem Partido, que alega combater a ''doutrinação ideológica'' nas escolas.

Por que é importante votar CONTRA?

Porque esse projeto abre brechas para perigosos desdobramentos – afinal, quem vai diferenciar o que é doutrinação ideológica do que é estímulo à autonomia, capacidade crítica, livre manifestação assegurada pela Constituição?

Porque há hoje uma escassez de entendimento sobre a profundidade dos dilemas que vivemos na educação brasileira. Veja só: o projeto de lei do Escola Sem Partido diz que o professor não deveria se aproveitar da ''audiência cativa'' dos alunos para promover seus próprios interesses. Onde está o dilema maior aqui? O professor se aproveitando de uma ''audiência cativa'' de alunos ou a própria existência de um formato escolar que cultiva essencialmente a transmissão de conteúdos, sustentada por uma hierarquia onde quem é autoridade impõe sua voz?

Porque quanto mais tempo dedicado em mudanças na área da educação apoiadas em estratégias de controle, mais serão postergadas mudanças realmente fundamentais. A doutrinação ideológica mais viva na escola não acontece pela boca do professor, mas sim pelo formato do sistema escolar, enraizado na competição, no esmigalhamento das singularidades – transformadas em número, em nota –, na fragmentação dos conteúdos e temas, apresentando aos alunos um mundo sem encanto nem inter-relação.

Por favor, não deixemos de votar na consulta pública contra o Programa Escola Sem Partido, neste link aqui (leva só um minutinho e é uma maneira de tornar pública a insatisfação com essa proposta).

https://www12.senado.leg.br/ecidadania/visualizacaomateria?id=125666


29 crianças e adolescentes são assassinados por dia no Brasil
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André Gravatá

29 presenças
29 futuros
29 urros
[de dor

29 crianças e adolescentes hoje acordaram para o último dia
29 crianças e adolescentes hoje andaram por ruas em contrações
29 crianças e adolescentes hoje viram armas rasgarem o ar dos pulmões
29 crianças e adolescentes hoje vão parar estupefatos diante da morte crua
29 crianças e adolescentes que nasceram no meio de uma luta nua
[que não era delas
29 crianças e adolescentes vão se perguntar, um sopro antes da despedida: por que eu? por que tão cedo? por que bruto? por que medo? por que covardia? por que carência? por que violência em vez de paciência?
29 famílias ou 29 comovidos vão se cobrir com lenços para em seguida dormir pesadelos
29 primeiras lágrimas de susto vão escorrer e molhar os chãos já úmidos de vermelho
29 notícias vão se espalhar por muitos 29 ouvidos
29 notícias vão entrar pelos ouvidos e cair direto na portaria das mentes, causar tristeza, surpresa, dor indiferente
29 notícias da barbárie vão sair da portaria das mentes em minutos e cair no vão dos (esfare)lamentos
29 sustos vão virar ventos
29 crianças e adolescentes são assassinados hoje e hoje mesmo habitam o vão escuro que seca o som dos seus urros, para que os próximos 29 venham, e também os apaguemos da história com borracha de bala, para que caibam os próximos a serem deslembrados, desmembrados, como numa dança macabra de cadeiras que são vidas que fogem expulsas
29 histórias que não merecem, depois de tanto desamor e descaso, receber um olhar profundamente raso


Eu gostaria que meus alunos soubessem…
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André Gravatá

Uma professora com dificuldades para compreender a realidade dos seus alunos inventou uma proposição simples e com profundas reverberações. Kyle Schwartz, educadora da Escola Elementar Doull, nos Estados Unidos, pediu que os estudantes completassem a frase: ''Eu gostaria que a minha professora soubesse…''. E recebeu respostas como:

“Eu gostaria que a minha professora soubesse o quanto eu sinto falta do meu pai porque ele foi deportado para o México quando eu tinha três anos e eu não o vejo há seis anos.''

''Eu gostaria que a minha professora soubesse que não tenho amigos pra brincar comigo.''

Inspirado na ação da professora em busca de uma conexão íntima com os alunos, perguntei a professores, num encontro presencial, se poderiam completar a frase ''Eu gostaria que meus alunos soubessem…''. Algumas das respostas seguem abaixo, compartilhadas como um convite para olharmos com mais sensibilidade para os educadores e educadoras que nos rodeiam. (E lanço aqui outro convite: quem quiser compartilhar sua história nas redes sociais, use a hashtag #EuGostariaQueMeusAlunosSoubessem).

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Que nossas certezas sejam desafiadas
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André Gravatá

Para os pais de X, desigualdade é tabu.
Para os pais de X, o tema das drogas é outro tabu.
Para os pais de X, a homossexualidade é mais um tabu.

Os pais de X têm medo que seu filho entre em contato com tabus. Querem protegê-lo do que não conhecem. Não sabem ao certo como o desconhecido pode influenciar seu filho.

Na escola, os professores de X não têm liberdade para abordar temas que sua família considera tabus. Ontem mesmo o professor de história de X recebeu advertência da direção por uma ''aula sobre ditadura com abordagem enviesada''. A aula sobre Darwin também rendeu uma advertência para a professora de biologia. Outra educadora dessa escola hoje iniciou um capítulo sobre sexualidade. Uma garota compartilhou uma pergunta relacionada com o tema do aborto, colegas se incomodaram e disseram: ''Não responda, professora, escola não é lugar pra falar disso''.

Na rotina, X passa muitas horas numa rede social que exibe principalmente as postagens de pessoas que pensam ideias parecidas. X vive num mundo onde suas certezas não são desafiadas. Pelo contrário, elas são sistematicamente reafirmadas.

Faz pouco tempo, X abriu um livro por acaso. Encontrou essa obra num canto da escola, abandonada, abriu sem ver o título nem autor. Leu trechos:

“A educação deve demonstrar que não há conhecimento que não esteja, em qualquer grau, ameaçado pelo erro e pela ilusão. A teoria da informação mostra que existe o risco de erro (…) em toda a comunicação de mensagem.

(…)

O inesperado surpreende-nos. Porque nos instalamos com demasia segurança nas nossas teorias e nas nossas ideias e estas não têm nenhuma estrutura para acolher o novo. Ora, o novo brota sem cessar. Nunca podemos prever como se apresentará, mas devemos contar com sua chegada, quer dizer contar com o inesperado. E uma vez chegado o inesperado, é necessário ser capaz de rever as nossas teorias (…)

A realidade não é evidentemente legível. As ideias e teorias não refletem, mas traduzem a realidade, que podem traduzir de forma errada. A nossa realidade apenas é a nossa ideia de realidade.”

Por um segundo, X pensou que aquele texto era complexo e interessante.

Por um segundo, X se perguntou se a escola poderia ser um espaço para desafiar ideias de realidade e certezas, quem sabe muitas delas sejam ilusões?

Por um segundo, X pensou que não era nada interessante viver num mundo em que, para respeitarem suas crenças, instaura-se uma tensão constante no ar, um clima de neutralidade que esconde os braços gordos do autoritarismo apertando a garganta da pluralidade.

Por um segundo, a frase “QUE NOSSAS CERTEZAS SEJAM DESAFIADAS” caiu na mente de X como um asteróide. Como erupção de um vulcão dentro do corpo. Decidiu tatuar a frase no braço pra nunca mais esquecer, pra ler todo dia pelo menos uma vez.

Para os pais de X, tatuagem é tabu.

[Que a história fictícia de X exista apenas na ficção.]

 

* Hoje em dia vemos ganhar espaço o projeto Escola Sem Partido, que defende uma educação ''sem doutrinação'', abrindo brechas para perigosos desdobramentos – afinal, quem vai diferenciar o que é doutrinação ideológica do que é estímulo à autonomia, capacidade crítica, livre manifestação assegurada pela Constituição? Para garantir a essência plural do artigo 5 da Constituição, que versa sobre a liberdade de expressão e manifestação, precisamos de escolas com terreno fértil para abordar temas diversos e complexos em formatos de interação com mais significado para alunos, educadores e comunidades, que questionem modelos de educação centrados na transmissão de conteúdos. Para se inspirar com diferentes propostas de educação atuais e em território brasileiro, veja este mapa de Inovação e Criatividade na Educação Básica.

** O livro encontrado por X se chama Os sete saberes para a educação do futuro, de autoria do francês Edgar Morin.


Não pode perguntar, mas pode bater?
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André Gravatá

''Os policiais chegaram gritando: LEVANTA AÊ, MÃOS NA PAREDE, MÃOS NAS COSTAS, TIRA AS MÃOS DO BOLSO, TIRA A TOUCA. Todo mundo assustado, perdido. Bateram com cassetete num estudante que perguntou se os policiais tinham mandado de reintegração de posse.''

Ouvi esse depoimento de um estudante de 16 anos da ETESP (Escola Técnica Estadual de São Paulo), na frente do 3º DP, no Centro de São Paulo. Hoje cedo a PM realizou a reintegração de posse de 4 unidades de ensino, sem nenhum mandado, sem recorrer à Justiça. Acusam os jovens de cometerem danos ao patrimônio público.

O que quero deixar bem marcado na mente de quem ler este texto é esta cena: um jovem pergunta aos policiais se eles têm mandado de reintegração de posse e então como resposta apanha com cassetete.

Como não é possível educar alguém violentamente, não podemos aceitar cenas assim se repetirem, até se tornarem mais comuns do que já são.

Se não há nem espaço para perguntas, o vale-tudo ganha terreno para se instaurar mais e mais. Não pode perguntar, mas pode bater?

Hoje ainda, os estudantes farão um ato na Avenida Paulista: https://www.facebook.com/events/245278935829369/


A violência é extravagante, a não-violência é urgente
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André Gravatá

Desde o ano passado, quando aconteceram as primeiras ocupações em escolas de São Paulo, o governo respondeu os fatos inesperados com estratégias de intimidação. É bomba para um lado, gás de pimenta para o outro, arrastamento de corpos para longe. Está explicitamente em voga a pedagogia da violência.

Um episódio alarmante na pedagogia da violência afirmada pelo governo se deu esta semana. A Secretaria de Segurança Pública de São Paulo informou em nota que eram ''extravagantes'' as condições defendidas por um juiz para a reintegração de posse do Centro Paula Souza.

Quais eram os pedidos ''extravagantes'' para a reintegração? Copio aqui a lista, descrita numa matéria do UOL:
1) Deveria ocorrer diante da presença de Oficial de Justiça;
2) Com acompanhamento do Conselho Tutelar;
3) Sob observância da decisão da 14ª Vara – com apresentação de cópia da decisão de reintegração;
4) Com a presença e sob o comando do secretário de Segurança Pública do Estado;
5) Sem a utilização de qualquer arma, seja letal ou não (como cassetetes, balas de borracha, gás de pimenta, entre outros).

Diga pra mim: onde estão as extravagâncias?
A palavra ''extravagantes'' na nota oficial me chamou atenção. Fui procurar a etimologia: extravagância vem do latim extravagari, cujo significado é ''andar sem rumo''. Vivemos hoje numa realidade em que é extravagante, sem rumo e ineficiente exigir que não se use armas contra jovens secundaristas?

A posição da Secretaria de Segurança sobre o uso de armas, por exemplo, é que a decisão sobre o porte ou não delas deve ser feita pela Polícia Militar. No entanto, essa justificativa não inspira nenhum pingo de confiança. Se olhamos as imagens da presença da polícia nas ocupações, a primeira palavra que salta à mente é brutalidade.

A decisão judicial com ''condições extravagantes'' foi revertida – ou seja, os policiais puderam entrar armados na ocupação. Acabaram não usando seus aparatos belicosos, mas não economizaram na hostilidade. Arrastaram os estudantes para fora com voracidade. Esta sim, uma cena extravagante.

Além de uma disputa em relação a quais mudanças devem acontecer nas escolas (fechá-las ou não, melhorar ou piorar a qualidade merenda etc.), há uma disputa de narrativas. Destaco aqui duas delas, que andam por extremos. A primeira é sobre a guerra, uma palavra dura que já no ano passado apareceu numa reunião na Secretaria de Educação, cujo áudio vazou na internet, na qual o chefe de gabinete da época dizia: ''Temos que ganhar a guerra final. E vamos ganhar''. A narrativa da guerra gera falas como a do vice-governador de São Paulo, que chegou a comparar a ocupação nas ETECs a uma tática nazista. Outra narrativa em movimento é a do diálogo, experimentada nas ocupações a cada vez que uma assembleia de alunos acontece, a cada vez que um professor visita a ocupação para colaborar com seus alunos.

A narrativa do diálogo é a que mais precisa ser entendida, nutrida, espalhada e reforçada, até que seja impossível rotular a não-violência como uma condição extravagante. Até que a não-violência se torne premissa básica para o contato.


Um convite ao desarmamento
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André Gravatá

Ademar, cego e miserável, é convidado para participar de um quadro humorístico num programa piloto. Um espetáculo em que o vestem com camisetas provocantes para participar de eventos das mais variadas temáticas. Com a camiseta 100% CHURRASCO GAÚCHO, ele vai a um encontro de vegetarianos. Com a camiseta 100% COMUNISTA, vai à Bolsa de Valores. Com a camiseta 100% BURGUÊS, vai à sede de um partido de esquerda. É uma cena precisa para descrever a violência do passado e do presente, repetida a cada vez que reduzimos alguém a ''100% ALGUMA COISA''. Esta história é um conto do brasileiro Glauco Mattoso e também uma das cenas da peça A Tragédia Latino-Americana, com direção de Felipe Hirsch, sendo que outros momentos da peça de dois atos e quatro horas também trazem narrativas de autores latino-americanos, como o mexicano Gerardo Arana, o argentino Salvador Benesdra e os brasileiros Lima Barreto e Reinaldo Moraes.

Vejamos a história do Brasil a partir das camisetas autoritariamente impostas: os portugueses chegaram aqui com os dizeres 100% DESCOBRIDORES no peito, num país que já havia sido descoberto há muito tempo. Obrigaram os índios a andar com a camiseta 100% SELVAGENS. Para os escravos: 100% MERCADORIAS. Séculos se passaram e quem podia pagar vestiu os nordestinos com 100% MÃO DE OBRA BARATA. Agora uma população inteira está vestida com a camiseta 100% CONSUMIDORES. Pouco espaço sobra para borrar e barrar as definições. E a fábrica de camisetas não para, novas estão sendo distribuídas: 100% IMPEACHMENT, 100% DILMA, 100% MILITARES.

A infinita quantidade de informação disponível não tem servido à reflexão, mas apenas para engordar as letras das palavras já estampadas nas camisetas.

Ousar não vestir camisetas que encolhem a complexidade do pensamento, que instigam o outro a ostentar seu uniforme de guerra, é um ato de desarmamento. Não estou falando de deixar de lado o próprio ponto de vista, mas sim reconhecer que ponto de vista não se usa só como trator.

A história da América Latina é uma narrativa de tratores em movimento, de insistentes construções e destruições. O cenário da peça A Tragédia Latino-Americana é formado por quase uma centena de blocos de isopor que os atores movem para todos os lados, inventando composições novas que mais se parecem com fragmentos e destroços – à medida que os blocos se movimentam, deixam pedaços pelo caminho. Os próprios atores, aliás, se parecem com os blocos de isopor, movendo-se para lá e para cá, deixam cair pedaços de histórias e dores em suas travessias.

A história que a peça nos conta a partir da voz de autores latino-americanos é uma narrativa que nossa educação, seja formal, seja informal, nos ensinou a ignorar. Aprendemos a ignorar os índios que morreram e morrem violentamente nas mãos do desenvolvimento. Aprendemos a ignorar os escravos que atravessaram dores do tamanho de oceanos. Aprendemos a ignorar os milhões de miseráveis (des)tratados até hoje como pessoas capazes somente de servir. Aprendemos a ignorar quem não veste a mesma camiseta que incorporamos – cada camiseta presa aos corpos é uma máquina que semeia a ausência de empatia.

Ignorar se tornou uma maneira de nos proteger de uma história que, olhada de perto, nos deixa com calafrios.

E a maior qualidade da peça dirigida por Hirsch é a coragem de resgatar, ao mesmo tempo, o passado e o presente que dão calafrios, e mostrá-los com a sutileza e o sorriso incomodado de quem sabe o peso incalculável de cada gota de sangue arrancada à força.

O que mais me espantou ao ver A Tragédia Latino-Americana foi voltar do teatro e me dar conta que a peça não está apenas em cartaz no Sesc Consolação, em São Paulo. A Tragédia Latino-Americana está em cartaz aqui em casa. Na minha e na sua casa.

Ela acontece a cada minuto que compactuamos com a violência que sustenta o chão onde pisamos – e falo aqui principalmente da violência que reduz o outro e nós mesmos a uma rasa definição e nada mais. A Tragédia Latino-Americana acontece a cada minuto em que, numa escola, numa conversa, num jornal, fala-se sobre o Brasil ou qualquer outro país vizinho sem que se leve em conta as várias narrativas que disputam espaço para constituir as identidades em movimento.

Na peça em cartaz nas nossas casas, todos estão feridos. Até que alguém, de surpresa, seja capaz de fugir dos reducionismos violentos, como acontece na cena narrada pelo uruguaio Eduardo Galeano no livro Amares, na qual um casal de professores alemães chega ao México e se apresenta a uma comunidade indígena dizendo:

– Nós viemos para aprender.
Os indígenas ficaram em silêncio.
Depois de um tempinho, alguém explicou o silêncio:
– É a primeira vez que alguém diz isso para a gente.

Ousar aprender com o outro é negar qualquer camiseta ''100% ALGUMA COISA''. É frear a vontade de colonizar quem está na nossa frente. É aprofundar o ato de desarmamento, uma vez que nossa arma mais mortífera é a vontade incessante de enquadrar cada pessoa numa definição e convencê-la do nosso ponto de vista.

Andar desarmado (e descamisado) perto de gente armada até os dentes é perigoso. Mas abre espaço para outro tipo de contato e descoberta. Quem sabe dessa areia movediça e incerta nascerá o que chamamos de diálogo.

A Tragédia Latino-Americana nos deixa com interrogações. ''Uma janela é suficiente para construir uma casa?'', é uma das perguntas levantadas pelo escritor Gerardo Arana num dos textos que inspiraram a peça. Nestes tempos de ódio e amor em migalhas, o Brasil ganharia muito se construísse algumas janelas a mais, mas agora voltadas para dentro, para que, quando as abríssemos, em vez de repetidamente olhar a distante grama do vizinho europeu e achar que ela é 100% VERDE, encontrássemos nós mesmos, aprendêssemos mais necessidade de aproximação do que distanciamento.