Blog do André Gravatá

Um chamado para tirar as luvas das mãos
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André Gravatá

Para falar sobre protagonismo jovem, convido o querido educador Paulo Freire para a conversa.

No livro Pedagogia da Autonomia, quando Freire fala sobre a relação entre educação e a convicção de uma mudança possível no mundo, ele diz: “Não posso estar no mundo de luvas nas mãos, constatando apenas”. As luvas que Freire não quer nas mãos são aquelas que nos distanciam da realidade, que nos impedem de entrar em contato com a pele do mundo diretamente. Ele faz um chamado para tirarmos as luvas das mãos reforçando que a educação não é neutra, que educar tem relação direta com intervir na realidade e por isso se faz necessária a insistência em perguntas como:

Estudo em favor de quê?
Estudo contra quê?

Não é que Freire esteja convidando a gente a dividir o mundo em dois, a favor e contra, é um convite mais complexo: ele está dizendo que a educação precisa estar comprometida com a mudança possível do mundo e consciente do contexto da sua realidade atual. Esse comprometimento nos leva a possibilidades de respostas bem urgentes para as perguntas de Freire, pois posso estudar e educar contra o preconceito racial, contra a desigualdade, a favor da emancipação, a favor da arte, contra a miséria, contra o machismo, a favor de cidades educadoras, a favor de uma comunicação não-violenta, a favor da inclusão, a favor do contato com a natureza, contra o autoritarismo.

E se olhamos para os projetos mais potentes que crianças e jovens têm desenvolvido em suas escolas, por todo o Brasil, encontramos ações realizadas sem luvas nas mãos, a favor de mudanças significativas nos seus territórios.

Participo do Criativos da Escola, um projeto realizado pelo Instituto Alana, por meio do qual encorajamos ações de protagonismo infanto-juvenil pelo país inteiro e há exemplos bem inspiradores a favor de uma educação que intervêm na realidade. No Ceará, por exemplo, o projeto Cruzando os sertões da mata branca nasceu contra a falta de conhecimento sobre a Caatinga, bioma com mais de 40% de área devastada. Criaram um projeto de lei que foi aprovado na Câmara dos Vereadores, para fortalecer as políticas de valorização e preservação da Caatinga. Veja mais por aqui:

Outro projeto para prestar atenção: no Rio de Janeiro, um grupo de alunas criou um coletivo contra o machismo e o racismo, com palestras e rodas de conversa sobre empoderamento feminino, oficinas sobre cuidados com os cabelos, entre outras movimentações. Para conhecer mais detalhes, veja este vídeo:

Projetos assim acontecem sem luvas nas mãos, deixariam Paulo Freire contente e apontam mudanças possíveis. Reafirmam que a educação tem o comprometimento com a realidade atual.

Se você desenvolve projetos protagonizados por crianças e jovens ou mesmo for um jovem envolvido em ações assim, aproveite e se inscreva no Desafio Criativos da Escola, que está com um chamado aberto até dia 1 de outubro, à procura de histórias de protagonismo: http://criativosdaescola.com.br/


Conversas sobre morte e educação
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André Gravatá

Quando o assunto é morte, transbordam perguntas. A médica Ana Cláudia Quintana tem uma verdadeira coleção delas: ''Por que as pessoas morrem? A morte é saída? Prisão? Portal? Abismo? É entrega? É como no sonho?''. Ana é geriatra e especialista em cuidados paliativos, defende que para mudar a maneira como as pessoas pensam e encaram a finitude é fundamental que se dialogue sobre a morte nas escolas. Porque quanto mais refletirmos sobre o fim, mais lúcidos e até menos doentes viveremos.

Tratar do tema da morte dentro da escola não é levar respostas para os alunos, mas, pelo contrário, insistir que as perguntas mais essenciais são preciosas e conviver com elas, sem escondê-las ou mesmo ignorá-las, pode transformar o olhar ao longo do tempo. Ana Quintana se lembra de um trecho do livro Cartas a um jovem poeta, do escritor Rainer Maria Rilke, no qual ele insiste que devemos amar nossas perguntas como quartos fechados ou livros escritos num idioma desconhecido, que vão sendo abertos vagarosamente: ''Não busque por enquanto respostas que não lhe podem ser dadas, porque não as poderia viver. Pois trata-se precisamente de viver tudo. Viva por enquanto as perguntas. Talvez depois, aos poucos, sem que o perceba, num dia longínquo, consiga viver a resposta”.

Compartilho abaixo um trecho da minha conversa com Ana Quintana.

O que você percebeu ao falar com educadores sobre o tema da morte?
Há uma resistência grande para falar sobre a morte, ainda mais porque vou por um caminho que é ousado: converso sobre a morte dos próprios educadores, deixo claro que esse processo é comum a todos nós, que não adianta a gente se distanciar dele. E quanto menos falarmos sobre isso, menos preparados estaremos. Aí o educador não terá o que dizer quando morrer um aluno ou quando acontecer um suicídio, apenas mudará de assunto. Trazer a perspectiva da morte para perto é convidar o educador a perceber o quanto ele tem dificuldade de entrar em contato com o tema. E vai descobrir que o problema não é o tema, mas sim como ele lida com o assunto. Como ele vai educar para a morte, para o cuidado, se isso não está muito claro pra ele? Talvez se ele tiver consciência que tem problemas com isso, até consiga falar sobre a morte. Mas primeiro ele precisa olhar para esse tema.

Como você dialoga com quem se dispõe a olhar para esse tema?
As pessoas falam: eu tenho medo da morte. Eu pergunto: em relação à morte, do que você tem medo? Ah, tenho medo da dor, respondem. Então digo: se você tem medo da dor, não é medo da morte, é medo da dor. Aí dizem: tenho medo do depois, medo de ser punida. Então o medo é da punição? Quando você explora o medo da morte, abre o armário e vê que não tem monstro, mas muitas perguntas. Quando se chega num impasse, vem a reflexão: será que você está pronto para responder a essas perguntas agora? Continue com as perguntas, uma hora vem a resposta. E continue falando sobre a morte, porque a morte ilumina a vida, dá mais sentido, você amplia a importância da vida.

Como os educadores podem lidar melhor com esse assunto?
Se uma criança morre na sala, de leucemia, por exemplo, é importante conversar com as crianças sobre como foi viver com aquele amigo, do que vão lembrar, o que importou, o que foi legal viver com esse amigo… No processo de luto, quando você fortalece o que foi bom com aquele que foi, o vínculo se restabelece. Dar espaço para as crianças falarem pode fazer com que os educadores aprendam muito. Se elas não têm esse espaço, vão ficar com angústia e serão adultos que não conseguem falar sobre a morte. O adulto que não tem a coragem de chorar na frente de uma criança está tentando a toda hora validar um papel de poder. Mas quando você fala sobre a morte com uma criança, você assume a fragilidade do ser humano. E no espaço da vulnerabilidade mora a força do ser humano.

*

Disponibilizar-se para uma conversa mais íntima, como propõe Ana Quintana, não é cultivar um olhar empático, não se trata de se colocar no lugar do outro, mas sim de uma aproximação mais profunda. ''Estamos falando aqui de compaixão, de respeitar o lugar do outro'', comenta Ana. Uma das experiências em que ela propôs uma conversa assim, íntima e calorosa sobre a morte, foi num projeto chamado ''Educação para a morte'', realizado em Cajuru, no interior de São Paulo, e idealizado pelo médico Pessanha Júnior em parceria com uma escola pública e outra privada.

Ana foi convidada para conversar sobre a morte com jovens do ensino médio de uma escola pública. Pessanha conta que, quando ela chegou, havia cerca de 400 alunos à sua espera. O projeto, realizado desde 2011, com o apoio de educadores de filosofia e sociologia, realiza encontros semestrais que reúnem os alunos em um franco e aberto diálogo. ''Provoco discussões, questiono muito, tenho poucas respostas e muitas perguntas'', comenta Pessanha.

Os diálogos envolvem convidados, vídeos e contação de histórias. É um momento para se aproximar do tema da morte com uma perspectiva sensível, sutil. Com formação em medicina, Pessanha sentiu durante a faculdade que não se falava sobre como cuidar de quem não tem cura e, depois de algumas perdas de pessoas próximas, se interessou mais fortemente pelo tema da finitude. A sensação de incompletude na sua formação o levou a outros caminhos. ''Fiz então graduação em filosofia para me tornar um médico melhor'', ressalta.

Pessanha e Ana refletem sobre a morte para se tornarem mais conscientes da importância da vida que acontece aqui e agora. Aliás, no filme O Quarto do Filho, do diretor italiano Nanni Moretti, sugerido por Ana para abrir diálogos sobre a morte, a cena do fechamento do caixão do filho é espantosa e perturbadora na mente do pai, a morte é tão inesperada e crua que revela a consistência vulnerável da vida que se dá agora, exatamente agora.

''Se você for dar um abraço, abrace pra valer, pode ser o último'', sugere Pessanha. ''Pense nos cinco maiores problemas que você tem atualmente e reflita: no sábado que vem, se eu estiver morto, meus problemas atuais fazem a diferença?'', questiona Ana. É com provocações assim que ambos deixam claro que o tema da morte tem relação íntima com educação, porque está ligado ao modo como entramos em contato com a vida no cotidiano, se realmente estamos acordados para a natureza efêmera da realidade, para o momento presente. Falar sobre a morte não é só falar sobre ausência, mas sim um convite estrondoso por mais presença.


O que te nutre?
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André Gravatá

O que te nutre nestes tempos de tanta barbárie?

Caminhando pelas notícias de ontem, vejo que uma ação da polícia deixou 10 mortos no Pará, o episódio de disputa agrária mais violento desde o massacre de Eldorado do Carajás, em 1996. Há também notícias sobre o desastroso programa de Dória para a região conhecida como Cracolândia, no centro de São Paulo. Há fotos de 12 dos 22 mortos no atentado em Manchester, no Reino Unido. Na maioria dessas notícias os acontecimentos são narrados friamente, como se não merecessem espanto profundo, arrepios, indignação.

Desnutrimos nosso olhar a cada notícia que apenas reforça em nós a normalidade da barbárie. Desnutrimos nosso corpo a cada vez que agimos de maneira a reforçar no mundo a normalidade da violência. E espalhamos essa aridez a cada vez que compartilhamos pedaços de deserto com as outras pessoas.

Por isso é tão importante a pergunta “o que te nutre?”. Como disse o rapper Criolo durante uma visita à ocupação do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) num trecho da Av. Paulista, em fevereiro deste ano: “Cada um dá o que tem… Quem tem ódio, dá ódio porque nunca ensinaram outra coisa para essa pessoa”. Se só nos nutrirmos de frieza e ódio, compartilharemos frieza e ódio. O que te nutre? Indiferença? Ódio? Como nos nutrirmos para então também nutrirmos os outros?

Insisto na pergunta “o que te nutre?” porque ela é também o tema da Ciranda de Filmes deste ano. A Ciranda é uma mostra de cinema e vivências que insiste na relevância da arte como linguagem para nutrir a vida. É um convite para ganhar fôlego. A Ciranda vai até domingo, dia 28 de maio, com diversas atividades gratuitas, em SP.

Ontem participei como mediador de uma roda de conversa que reuniu o educador Reinaldo Nascimento, da pedagogia de emergência, a educadora Poty Poran, da Escola Estadual Indígena Krukutu e a Sonia Hirsch, jornalista e especialista em despertar nas pessoas o desejo de saúde. Durante o encontro, compartilhei a pergunta: O que hoje vemos como normal, mas que não deveríamos considerar normal de maneira nenhuma?

A Poran disse que até hoje há quem olhe para os indígenas como se fossem estrangeiros no Brasil, e isso é um absurdo. A Sonia falou sobre acharmos normal que as crianças comam salsicha e outros alimentos de mentira na merenda escolar. O Reinaldo mencionou o quanto nos acostumamos com crianças pedindo dinheiro na rua. Nessa conversa, nutrimos nosso espanto e nossa sensibilidade com histórias de vida, com a poesia que é vivida. E é de mais encontros assim que precisamos. De mais ouvidos abertos, de uma linguagem que nos aproxime.

Se cada um dá o que tem, o que você tem? O que você nutre e o que te nutre são perguntas parentes, que apontam a nossa responsabilidade em nos mantermos acordados, em não morrermos intoxicados pela indiferença.


Por mais objeção de consciência
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André Gravatá

Quem me avisou que a Organização das Nações Unidas (ONU) definiu 15 de maio como o dia do objetor de consciência foi a educadora Lia Diskin, cofundadora da Associação Palas Athena. Ela defende que a expressão “objeção de consciência” seja percebida de maneira ampla e relacionada, por exemplo, com a não aceitação de regras e situações diversas que perpetuam violências.

Quando conversamos sobre atos de objeção de consciência, Lia contou a história da tribo indiana dos bishnois, que resistiu a uma derrubada de árvores ordenada pelo rei da árida região onde moravam, no século 18, e esse ato infelizmente desencadeou tanto um massacre de centenas de bishnois como também uma posterior preservação das árvores em homenagem à coragem que demonstraram. Outro exemplo citado por Lia é a profunda não aceitação do extermínio de crianças que levou a polonesa Irena Sendler a salvar mais de 2500 crianças judias.

Sobre a história de Irena, dedico mais palavras, para olharmos de perto nos olhos dessa mestra em objeção de consciência. No livro A história de Irena Sendler – A mãe das crianças do holocausto, da polonesa Anna Mieszkowska, é possível acompanhar Irena durante a Segunda Guerra Mundial, arriscando sua vida pelas ruas do gueto de Varsóvia.

Em depoimento presente no livro, Irena nos conta que as crianças pequenas eram retiradas do gueto ''principalmente pelo edifício do tribunal de justiça localizado na rua Lezno. Esse prédio tinha duas entradas: uma do lado do gueto e a outra do lado ariano (na rua Ogrodowa). Algumas portas ficavam abertas e, graças à coragem dos zeladores, era possível sair do prédio com uma criança. As crianças também eram levadas para fora do gueto em carros de bombeiros, ambulâncias ou em bondes (…) Algumas crianças eram levadas para fora em sacos, caixas, cestos. Os bebês eram adormecidos e escondidos em caixas especiais com aberturas. Eram levados em ambulâncias (…) nas quais transportávamos para o gueto produtos de desinfecção…”.

Para se ter uma ideia da importância desse ato de objeção de consciência praticado por Irena e seus parceiros de resistência, compartilho as palavras de um educador polonês citado no livro, Feliks Tych, que afirma: a Segunda Guerra Mundial “havia se tornado a primeira guerra da história voltada conscientemente também contra as crianças. Exterminar as crianças tornou-se um dos objetivos de Hitler naquela guerra. Não se tratava de todas as crianças dos países ocupados, mas sim dos representantes de um grupo bem determinado: as crianças judias”. 

Enquanto lia o livro, imaginava a conversa entre um casal de judeus e Irena. Reticente, acuado, o casal entrega uma criança nas suas mãos, buscando garantias de sobrevivência do filho, sonhando com um fio de esperança. Que cena inimaginável! Mas aconteceu. Muitas vezes. 

Irena faleceu apenas aos 98 anos, em 2008. E hoje, no dia da objeção de consciência, o que Irena está tentando nos lembrar? O que suas ações dizem para nós? Elas afirmam que temos a capacidade de escolha mesmo nas situações mais trágicas e terríveis. E se dar conta disso é libertador e apavorante, pois essa percepção recupera a responsabilidade que carregamos – e frequentemente ignoramos – em cada ação cotidiana. Cada escolha que fazemos é a afirmação ou não de violências.

Tantos e tantos dias começamos listando mentalmente ou até anotando o que vamos fazer… Que tal hoje ser um dia para refletir sobre o que nossa consciência nos convoca a não fazer ou desobedecer?


Uma pessoa ocupada não tem tempo de se impressionar com o dia que amanhece?
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André Gravatá

O celular toca. A pessoa do outro lado da linha quer me convencer a assinar um jornal. Prefiro não. ''Como o senhor se informa?'', insiste. Aviso que estou lendo menos notícias. E falo uma verdade íntima que soa como brincadeira: uma das maneiras de me informar é abrir a janela pela manhã e contemplar o céu. 

A pessoa que ouve minha frase dá sinais de irritação, como se eu estivesse tirando sarro da cara dela. Ela me pergunta: ''Você trabalha?'', num tom que carrega mais palavras nas entrelinhas: Você é um vagabundo? Só assim para ter tempo de olhar as nuvens!

Prefiro não responder. Daí nos encaminhamos para o fim da conversa. Mas não findaram os ecos daquela ligação. Uma pessoa que trabalha não tem tempo para olhar pela janela? Muito estranho acharmos normal que uma pessoa ocupada não tenha disponibilidade de se impressionar com o dia que amanhece.

Compartilho essa lembrança para falar do filme Paterson, do diretor Jim Jarmusch, que está em cartaz e narra a história de um motorista de ônibus que é também poeta. Mesmo em um cotidiano bem repetitivo, o personagem percebe encantamento e espanto nas ruas observadas a partir da janela do ônibus, com olhos que tateiam o asfalto e as pessoas. Paterson percebe os encontros inesperados e novos de cada dia, como quando ouve o poema de uma adolescente com uma atenção extraordinária. 

A poesia faz parte da vida de Paterson como uma prática rotineira. Não aparece em um momento específico do dia, mas sim como um ar pra respirar onde quer que ele esteja.

Nossa cultura nos ensina a separar as experiências vividas em categorias: trabalho, diversão, estudos etc. Assim como numa escola, quando entramos e há o momento de aprender português. Soa um sinal sonoro e se abre a hora da geografia. Outro sinal, então chega a matemática. Interiorizamos a experiência de um mundo partido, fragmentado. O que vemos sempre são retalhos. É raro se deparar com um adulto como Paterson, capaz de brincar com seu tempo presente como uma criança, que ao observar uma caixa de fósforos consegue atravessá-la com o olhar e afirmar “aqui está o mais lindo fósforo do mundo / (…) / com uma cabeça roxa-escura granulada, tão contida e furiosa / e teimosamente pronta para entrar em chamas'' – o autor da maioria dos poemas presentes no filme é o norte-americano Ron Padgett.

Paterson vive na cidade de Paterson, New Jersey, nos EUA, uma sutileza que revela a proximidade entre a cidade e o personagem. E seus poemas são escritos num caderno secreto. A poesia dele é íntima, nasce com um fim em si mesma: a percepção poética no cotidiano é um estrondoso ato criador. Paterson me faz lembrar de uma frase do músico John Cage: “A arte obscureceu a diferença entre arte e vida. Deixemos agora a vida obscurecer a diferença entre vida e arte”.

Deixar a vida obscurecer a diferença entre vida e arte é um ato de resistência em um mundo onde a violência está banalizada e presente nos mais variados momentos do dia a dia. Laura, esposa de Paterson, também escreve sua poesia cotidiana, mas não tanto em palavras, a dela é principalmente visual. Até os cupcakes preparados por Laura são cuidadosamente decorados, repetindo um estilo de linhas em preto e branco que aparece também nas paredes da casa e nas suas roupas. O que está em evidência aqui é a não separação entre vida e arte. É o resgate da disposição para brincar, para abrir a janela pela manhã e presenciar um acontecimento significativo, misterioso, vital – afinal, não é impressionante que o dia amanheça? Isso não é de dar arrepios?


Não consigo me habituar
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André Gravatá

Dois amigos conversam num café. Um deles, chamado Bérenger, deixa claro: não se habitua com uma vida que se resume ao cansaço de tanto trabalhar. O amigo, Jean, é conformado: ''Todo mundo tem que se habituar''.

É durante a conversa que acontece um fato extraordinário: aparece um ruidoso rinoceronte por perto. Acelerado, violento, levanta poeira por onde passa. Deixa um rastro de perplexidade.

Os dois amigos não sabiam que rapidamente todas as pessoas ao redor também se transformariam em rinocerontes. Inclusive Jean, o defensor da normalidade. Apenas uma pessoa escapa da metamorfose: Bérenger. Percebemos a consciência desse personagem em carne viva quando compartilha seu dever mais radical a partir de então: ''… se opor aos rinocerontes, lucidamente, firmemente''.

Essa é a história de uma peça de teatro intitulada O Rinoceronte, escrita em 1959 pelo dramaturgo Eugène Ionesco. Os rinocerontes que correm pelo texto nos convidam a olhar no espelho para conferir o nível de deformação da nossa consciência. Conferir se a indiferença já transformou nossa linguagem em urro. Se nossa incapacidade de considerar o normal como absurdo nos fez acolher a transformação em animais violentos como uma dádiva ou inescapável aridez da maturidade.

A frase de Bérenger que mais representa o porquê de ele não ter se tornado um rinoceronte é ''não consigo me habituar''. Não consegue se habituar ao trabalho. Não consegue se habituar à uma aparência limpa, de barba feita, cabelo penteado. Não consegue se habituar com o barulho dos rinocerontes.

''Os mortos são mais numerosos que os vivos. O número deles aumenta e os vivos são raros'', comenta Bérenger no início da história. E os mortos, os rinocerontes, estão no poder. Há rinocerontes trabalhando para desmontar as conquistas trabalhistas. Há rinocerontes invadindo as escolas para silenciar professores. Há rinocerontes em fila nas redes sociais. Há rinocerontes disfarçados de bons sujeitos. Há quem se torne rinoceronte sem perceber, ludibriado pelo rinoceronte que se finge de bom sujeito.

Por outro lado, o ato de apontar para os rinocerontes também é acompanhado de um perigo: pode criar uma pretensão exagerada naqueles que não se reconhecem como rinocerontes. E aí quem não se sente rinoceronte acaba virando rinoceronte ao se plantar numa posição que reforça insistentemente o ódio ao outro.

Mas a reflexão que mais pulsa na peça e mais tem relação com nosso presente não é a divisão do mundo entre rinocerontes e humanos. A pergunta principal é o quanto somos capazes de nos habituar ou não com o estado de coisas ao nosso redor.

Sugiro um exercício breve: preste atenção nas situações vividas nesta semana em que você se sente movido a declarar intimamente e/ou publicamente que não consegue se habituar a elas. Não conseguir se habituar é o que pode garantir um pouco de sanidade nestes tempos em que o absurdo e a normalidade caminham tão próximos.


Escola em Manaus abre portas para a comunidade e para o protagonismo
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André Gravatá

“Há muita burocracia, muitos tentam transformar a escola numa empresa, mas queremos desconstruir esse olhar. Muitos falam que não dá para mudar a escola, não acreditam. Mas a gente prova, depois de um ano de projeto, que é possível fazer uma escola diferente. E a mudança contagia”, comenta Lúcia Cristina Santos, diretora da Escola Professor Waldir Garcia, em Manaus (AM), em uma inspiradora conversa que durou mais de três horas.

Um dos elementos que chama atenção perto da mesa de Lúcia é um estandarte com o colorido desenho de um boi e o nome dele: Garcioso. É uma lembrança do Festival de Folclore que mobiliza toda a comunidade e gera renda para a escola realizar pequenos consertos.

A Waldir Garcia, que recebe alunos do 1º ao 5º ano, foi a primeira escola de ensino integral de Manaus, e hoje já são cinco no total. O atual projeto se desenvolve com o apoio do Coletivo Escola Família do Amazonas (CEFA), um grupo de famílias que se reuniu para dialogar sobre a educação dos filhos, com a intenção de tirá-los de escolas particulares e matriculá-los em instituições públicas. Como sonhavam com uma educação transformadora, diferente, membros do CEFA descobriram várias práticas criativas e escreveram um projeto da escola que gostariam, em seguida apresentado para a secretaria municipal de educação. “Nós da escola Waldir Garcia queríamos realizar esse projeto na prática. E ano passado iniciamos, em fevereiro”, relembra Lúcia, que também viajou a São Paulo duas vezes, acompanhada de pessoas da sua equipe, para participar de um encontro sobre educação integral e se inspirar com iniciativas como a Escola Municipal Campos Salles, no Bairro Educador Heliópolis, e a EMEI Gabriel Prestes, na Rua da Consolação.

Lúcia anda comigo pela escola e mostra o lugar onde acontecem as assembleias semanais, prática que iniciou também em fevereiro do ano passado. Os alunos decidiram, por exemplo, depois de vários diálogos em assembleia, que os duzentos estudantes da escola não mais teriam intervalos separados, mas sim um mesmo momento de recreio, para conviverem mais próximos. Eles assumiram a responsabilidade de organizar o intervalo com todos alunos ao mesmo tempo.

Andando pelo Chapéu de Palha, nome do espaço na escola onde ocorrem as assembleias, dá pra ver uma marca de água nas paredes. É indício das cheias. Quando aumenta o nível do igarapé, a água toma conta dos arredores e de parte da própria escola. Dois anos atrás, para facilitar a presença dos alunos, alguns até acamparam nas salas de aula da Waldir Garcia. Entre os estudantes, há dezenove imigrantes, a maioria haitianos.

Entro nas salas de aula e vejo crianças que estão reaprendendo o que é uma escola. Desde o início do ano passado, muitas práticas mudaram na Waldir Garcia além da criação de assembleias.

Os alunos passaram a se encontrar semanalmente com tutores, para refletir sobre seus projetos de vida. É um momento para questionar quais são seus sonhos e como podem realizar essas aspirações. Outros funcionários da escola, que trabalham com a merenda e serviços gerais, também podem exercer o papel de tutores, assim como membros das famílias. E mais: todos os funcionários da Waldir Garcia também têm tutores, com quem combinam encontros de estudos e conversas – o tutor é alguém disponível para escutá-los. “A gente sentia que a merendeira, por exemplo, não se considerava parte do processo de educação, achando que só fazia a merenda e ponto. Mas a gente sabe o quanto ela é fundamental”, diz Lúcia.

Foram criados os grupos de responsabilidade, para que as crianças e jovens se comprometam, junto com seus tutores, a cuidar da escola no dia a dia. Há um grupo que apoia no recreio, outro na merenda, na sala de computadores e outros mais.

Os alunos passaram a aprender filosofia desde o primeiro ano, com a oficina de iniciação ao pensamento filosófico.

Aumentaram as visitas a espaços da região, para aprender sobre meio ambiente no parque, para ocupar o entorno com piqueniques, para assistir a filmes na tela do cinema.

Acabaram as filas no momento da entrada da escola, gerando uma polêmica com os pais, que reclamaram, viam o fim das filas como sinal de desorganização.

Encontro na quadra da escola durante a semana de literatura amazonense

Jovens nas mesas compartilhadas, em estudos a partir de roteiros de pesquisa individuais

“É preciso que o aluno seja protagonista, é preciso que o aluno desenvolva sua autonomia. Quando ele sai da escola quase nunca tem alguém o conduzindo pela mão. A autonomia é importante para a vida. Mas muitos pais ainda pensam que a melhor escola é a tradicional, a escola de quem decora, copia, responde pergunta de prova. Nosso desafio é envolver mais as famílias, para que entendam: os estudantes dão mais importância para a escola quando são protagonistas da própria educação, quando são convidados a participar, não recebendo tudo pronto. Aí os estudantes passam a ver a escola com outros olhos”, comenta Lúcia, ressaltando que os jovens são avaliados na escola não mais com provas bimestrais, mas sim ao longo do processo e com autoavaliações individuais e em grupo.

A diretora anda mais um pouco e me mostra a quadra. Já é noite e agora acontece uma partida de futebol a todo vapor, com um time de jovens estudantes da escola. Algumas pessoas que assistem à partida estão com sacolas de quitutes, para daqui a pouco celebrarem o aniversário de um dos garotos ao redor de uma mesa num dos cantos da quadra. Todos esses jovens e adultos estão na escola fora do horário de aula. É que a Waldir Garcia possibilita que a comunidade local use a quadra para praticar esportes ou mesmo desenvolver outras atividades, como as aulas de zumba que acontecem semanalmente. É só assinar um termo de responsabilidade para cuidar do espaço e respeitar os horários combinados.

Enquanto celebram o aniversário, celebro a existência dessa escola e da força das educadoras envolvidas nesse projeto. Espalhar essa história para que mais pessoas conheçam é fundamental para que nosso imaginário nutra-se não apenas das tragédias e retrocessos do presente, mas também das resistências que aumentam nosso fôlego.

* A Escola Municipal Waldir Garcia é a primeira escola do Norte do Brasil a ser selecionada pelo Escolas Transformadoras, um projeto que está criando uma rede com iniciativas de educação inspiradoras e com impacto relevante nas suas comunidades.

 

 

 


Cidade educadora é cidade poética
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André Gravatá

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Dia 30 de novembro de 2016 é o Dia Internacional das Cidades Educadoras, em comemoração à data em que nasceu a Carta das Cidades Educadoras, em 1990, durante o 1º Congresso Internacional das Cidades Educadoras, na Espanha. Para celebrar este dia, compartilho uma história de viagem por Rosário, onde participei do XIV Congresso Internacional de Cidades Educadoras, em 2016. O que encontrei por lá foi bem mais do que um evento com referências e inspirações para repensarmos as escolas e cidades. O poeta brasileiro Manoel de Barros diria que Rosário é um centro de invenção de esticadores de horizontes.

Em Rosário, o olhar se encanta de início com o Tríptico da Infância, uma conexão de três espaços públicos que promovem encontros inesperados. Na Ilha das Invenções, anteriormente uma estação ferroviária, há uma oficina para consertar corações partidos e um arquivo para guardar medos. O Jardim das Crianças, outro lugar brincante do Tríptico, é palco de uma máquina para voar; uma máquina com teias para se dependurar; uma engenhoca com escadas para inventar sons e depois descer de escorregador; e até uma trilha entre bambus para perder-se num pequeno labirinto com ruídos de mata. O terceiro espaço do Tríptico, a Granja da Infância, é um lugar para as crianças entrarem em contato com a natureza, com espaços para descobrir cheiros, texturas e sabores, por meio de experimentos. Para além do Tríptico, há também a Plataforma Lavardén, em que um dos andares é repleto de guarda-roupas que convidam a experiências de imersão em contextos fantásticos. Você abre um guarda-roupa e encontra uma biblioteca com livros pendurados no teto e estantes cheias de obras interessantes. Abre outro e se vê rodeado de paredes de espelhos e araras de roupas com fantasias. Abre mais um e aparece uma sala com quebra-cabeças. Abre mais um e se depara com o clube social e desportivo dos defensores de utopias. Abre mais um e o espanto doce é maior ainda: descobre um carrossel numa sala com extensas cortinas vermelhas.

São espaços públicos inventados para propor jogos fantasiosos, que aguçam os músculos da imaginação e a singular capacidade de criar de cada um. Dentro da Ilha das Invenções, ouvimos que há uma política de cuidado que convida adultos e crianças para jogar juntos. Inventaram espaços públicos que provocam o encontro do aprender com o imaginar, para que as pessoas se vejam inventivas. “O espaço público é um lugar para aparecer diante dos olhos dos outros”, comentou Chiqui González, Ministra de Inovação e Cultura da cidade de Santa Fé, uma das vozes mais marcantes do Congresso. Há um tempo, um garoto de oito anos disse para a ministra: “Então o espaço público é para aparecer, justo no país dos desaparecidos?”. Durante sua fala, Chiqui deu nome aos desaparecidos, com uma voz impregnada de emoção: “Que apareçam os movimentos sociais, que apareçam os jovens mexicanos mortos, que apareçam os que nunca tiveram nome, que apareçam os abandonados e abusados, que apareçam os velhos e pobres, que apareça a enorme força renovadora das mulheres, que apareça a sensibilidade, que apareça o afeto, que apareça a imaginação, que apareçam as percepções… Todas são irmãs. Que apareça a cultura. E que possamos viver melhor”. Ao lado de Chiqui, estava Macaé Evaristo, Secretária de Educação de Minas Gerais, que defendeu uma educação compromissada com os mais vulneráveis, com aqueles que historicamente foram transformados em desiguais. Inspirados por conversas com pessoas do mundo inteiro, dezenas de brasileiros que participavam do congresso em Rosário se reuniram para dialogar sobre o tema das cidades educadoras no Brasil, e pensar em trocas e ações coletivas possíveis. Quem sabe, em breve, encontraremos reverberações dessa conversa traduzidas em mais poesia derramada pelos nossos territórios?

Uma das frases citadas por Chiqui, de autoria da poeta argentina Alejandra Pizarnik, resume a experiência em Rosário: “Cada palavra diz o que diz, e além disso mais, e outra coisa”. Para inventar uma cidade educadora, não podemos nos contentar apenas com os dizeres explícitos, com as invenções óbvias. Precisamos buscar o que as palavras dizem mais além, e mais. Descobrir como imaginar um tanto mais, e mais um pouco. Mais, mas não no sentido do excesso e, sim, na direção do comprometimento com a consistência da poesia. Inventar novos contextos potentes e ir fundo, e continuar por mais. Como um convite para atravessarmos o labirinto do mundo, Rosário afirma que nossa imaginação é capaz de dizer mais.

*texto publicado inicialmente aqui


Na pele do chão
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André Gravatá

Em tempos duros, com sensibilidades entupidas, é fundamental que até a pele do concreto seja diretamente marcada por poesia e sutileza. Compartilho aqui uma breve biografia de poesias que nasceram no concreto:

Era mais uma tarde comum na escola Caetano de Campos, em SP, e o amigo Luiz Carlos estava dedicado na criação de placas de concreto que entrariam num vão no pátio da escola.
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A pele do cimento recém-nascido chamou minha atenção enquanto caminhava no pátio ao lado de uma amiga, a Ana Luísa, e conversávamos sobre a criação de uma oficina de poesia.
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Uma dos meus sonhos ainda não realizados era exatamente escrever poesia no cimento e encontrei ali uma oportunidade única, que não podia desperdiçar. Perguntei ao Luiz se havia espaço naquele cimento para algumas sutilezas e ele respondeu entusiasmadamente que sim. (Imaginem minha alegria inesperada!)
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Nasceu uma frase sobre a origem daquele chão.
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Uma pergunta misteriosa.
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Um verso do poeta brasileiro Paulo Leminski, sobre sóis que merecem soltura.
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Uma frase pra relembrar o óbvio ignorado.
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De sonho realizado, voltei para casa com uma interrogação na mão: numa cidade educadora, que valoriza o encontro e a sutileza, há mais poesia escrita em livros ou nas paredes, chãos e coisas?


Carta aberta ao mestre Manoel de Barros
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André Gravatá

* escrevi a carta abaixo no dia da morte do poeta Manoel de Barros e hoje, exatamente dois anos depois, insisto em relembrá-la para destacar a força da poesia que Manoel nos deixou de presente.

Querido Manoel, não sei como começar esta carta… ela é uma tentativa de amarrar o tempo no poste. Como a gente amarra o tempo no poste, mestre Manoel? Esta carta é um vareio da imaginação, bem como o vareio que o senhor teve aos sete anos, quando tentou pegar na bunda do vento. Amarrar o tempo no poste é como pegar na bunda do vento?

Soube que o senhor está internado, temporariamente impossibilitado de pendurar bentevis no sol. O que o senhor tem que barra os bentevis? Há uma pergunta que dança em mim: os anos pesam o peso da pedra ou do algodão ou da pedra e do algodão ao mesmo tempo?

Escrevo-lhe esta carta para agradecê-lo pelo que fez por mim sem nem saber que fez. Pois foi com o senhor que se quintuplicou em meus voos a importância de apalpar as intimidades do mundo.

Foi com o senhor que descobri a esticadeza de horizontes e o carregamento de água na peneira. {Abaixo há uma foto minha com a peneira em que peneireio nascentes desde menininho.}

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Foi com o senhor que aprendi a sapiência do bocó. Que aprendi a ser endivinado pelo orvalho e desaprendido pelas horas do dia. Que aprendi que dá para pegar na voz de um peixe. {Estava numa loja de papéis, e a pessoa que me atendeu disse que o filho dela, de uns 6 anos, gosta de poesia. Daí peguei uma caneta na hora e lancei sobre o papel um presente ao rapaz, uma peraltagem manoeleira: “As coisas não querem mais ser vistas por pessoas razoáveis. Elas desejam ser olhadas de azul”.}

Foi com o senhor que vi cenas nunca antes imaginadas nem no império brinquedeiro da minha infanciência. Com o senhor andei por um rio que cortava a tarde pelo meio. De azul, o senhor me mostrou outonos mantidos por cigarras e lamas fascinando as borboletas. Me mostrou um homem quase-árvore, que guardava um encolhedor de rios e um abridor de amanhecer {jamais vou me esquecer de como o abridor de amanhecer auroreia a terra}. O senhor me ensinou a apalpar os perfumes do sol. Me disse que as coisas que não existem são mais bonitas. E não entendi. E o senhor me deu um desafio: “ao voltar para a casa, fotografe o silêncio”. E tentei, tentei, mas não consegui sacar nenhuma imagenzinha do silêncio. E voltei para uma outra conversa. E perguntei como fotografar o que eu não via. E o senhor não me explicou, só me levou para perto de uma árvore em que pássaros gorjeavam. Que cena fecundante, que bonitezaria! E o senhor me perguntou: “por que o gorjeio é mais bonito do que o canto?”. Não soube responder, estava eu em estado de voz perdida, penetrado pelos gorjeios. Passou um tempo e o senhor continuou: “gorjeio é mais bonito do que canto porque nele se inclui a sedução. É quando a pássara está enamorada que ela gorjeia”. E o senhor pediu para eu olhar a árvore com atenção. “As árvores ficam loucas se estão gorjeadas”, disse. Sim, foi a primeira vez que vi o delírio de uma árvore. E foi como um balde de água cheio de fogos de artifício cremosos se derramando sobre meu olhar… Aí fotografei o silêncio do delírio da árvore gorjeada.

O senhor já me convidou para tantos festejos linguajeiros que nem há como agradecimensar tantas entradas no reino da poesia. O senhor é sábio em celebrar vazios – e sabe bem como chamar outros para partilhar sua fervura. O senhor convida homens sozinhos como pentes, que têm vozes em que nascem árvores. O senhor convida aves que sonham pelo pescoço, macacos que gorjeiam, lagartixas com odor verde, caramujos-flores, corós transparentes, ciscos feitos de gravetos, areia, grampos e cuspes de aves, mulheres de 7 peitos, moscas que se dependuram na beira de ralos, córregos, formigas ajoelhadas em pedras, baratas que passeiam nas formas de bolo, chuvas vestidas de sóis, meninos que veem a cor das vogais, sapos que sabem divinamentos, caracóis que não gosmam em latas, latas nuas e todos os tipos de pessoas com cabeças apinhadas de parafusos que farfalham.

Mestre Manoel, vidente das coisas trocadas, ousadioso dos instintos primevos, o senhor é mesmo o apogeu do chão. É quem monumentou as miudezas e também as formigas espremidas pela neblina. E o tibun das crianças. E a cobra de vidro que dá a volta por trás da sua casa.

O escrevimento dessa carta me deu vontade de rasgar inteirinhinha a fantasia da razão, está na cara que todos os caminhos levam à ignorância. Tenho gostos pela vadiagem com letras… Tenho que reaprender a errar a língua… E compartilho uma novidade: vou criar peixes no bolso, está decidido. Depois o senhor me manda algumas sugestões sobre cuidadoria de cardumes bolsais? Quem sabe dá para criar um Tratado Geral das Criações no Bolso.

Me despeço… Enquanto me despeço, remexo, com um pedacinho de arame, o poço das lembranças manoeleiras que guardo em mim. Os ventos levam-me para longe, os ventos lhe levam para longe… Manoel, Manoel, Manoel, Manoel, Manoel, Manoel, Manoel, Manoel, Manoel, Manoel, Manoel, Manoel, Manoel, Manoel, Manoel, Manoel… repetir, repetir, repetir… até ficar diferente, até contrair visão fontana.

Que uma chuva de pingos de sol leves caiam feito mel sobre o senhor. Já é hora de eu tomar meu banho no orvalho da manhã.

Tibun.

Obs.: Mestre Manoel, não foi possível amarrar o tempo no poste… Minutos antes de eu partilhar a carta que escrevi para o senhor, escrita com a água da fonte que sai dos olhos, o senhor voou fora da asa. Agradecimenso por pintar tantos azuis no mundo. Que o fim lhe olhe de azul também. Que o fim lhe olhe de azul. Manoel, Manoel, Manoel…