Blog do André Gravatá

Cinco poemas de Solano Trindade para ler em voz alta
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André Gravatá

Os versos do poeta Solano Trindade (1908-1974) me fazem recordar o educador Paulo Freire, quando Freire afirmava que é fundamental denunciarmos o modo como o mundo é hoje e ao mesmo tempo anunciar outras maneiras de viver.

Solano fala sobre cultura negra, desejo por liberdade, amor, desigualdade racial e social. Solano fala sobre seu tempo e o nosso. Solano diz:

Não construirei
um poema
que me imortalize
Nem passarei para a história
como um grande artista
ficarei com o povo
na sua canção
e assim cumprirei
a minha missão de poeta.

E agora, impregnado com a indignação e a esperança de Solano, selecionei cinco poemas dele pra compartilhar e nutrir quem é poroso à poesia.

1.
Tem gente com fome

Trem sujo da Leopoldina,
Correndo correndo,
Parece dizer:
Tem gente com fome,
Tem gente com fome,
Tem gente com fome…

Piiiii!
Estação de Caxias,
De novo a correr,
De novo a dizer:
Tem gente com fome,
Tem gente com fome,
Tem gente com fome…

Vigário Geral,
Lucas, Cordovil,
Brás de Pina
Penha Circular,
Estação da Penha,
Olaria, Ramos,
Bom Sucesso,
Carlos Chagas
Triagem, Mauá,
Trem sujo da Leopoldina,
Correndo correndo
Parece dizer:
Tem gente com fome,
Tem gente com fome,
Tem gente com fome…
Tantas caras tristes,
Querendo chegar,
Em algum destino,
Em algum lugar…

Trem sujo da Leopoldina
Correndo correndo,
Parece dizer:
Tem gente com fome,
Tem gente com fome,
Tem gente com fome…

Só nas estações,
Quando vai parando,
Lentamente,
Começa a dizer:
Se tem gente com fome,
Dai de comer…
Se tem gente com fome,
Dai de comer…
Mas o freio de ar,
Todo autoritário,
Manda o trem calar:
Psiuuuuuuuuuu…

*assista neste link a artista Raquel Trindade, filha de Solano, declamando este poema com uma força imensa.

2.
Esperemos

Eu ia fazer um poema para você
mas me falaram das crueldades
nas colônias inglesas
e o poema não saiu

ia falar do seu corpo
de suas mãos
amada
quando soube
que a polícia espancou um companheiro
e o poema não saiu

ia falar em canções
no belo da natureza
nos jardins
nas flores
quando falaram-me em guerra
e o poema não saiu

perdão amada
por não ter construído o seu poema
amanhã esse poema sairá
esperemos.

3.
Canto de Esperança
À minha filha Raquel Solano Trindade

Há sempre um poema me esperando
Nas amadas feitas de ternura
E por isso o meu tempo
Não é contado à velhice
Estou conservado no ritmo
De meu povo
Me tornei cantiga determinadamente
E nunca terei tempo para morrer
Meu desejo de paz se tornou rosa
E a minha vida é enfeitada
Com bandeirolas coloridas
Porque eu tenho uma festa interior
Voltada para o grande amanhã

4.
F. da P.

Amor
um dia farei um poema
como tu queres
dicionário ao lado
um livro de vocabulário
um tratado de métrica
um tratado de rimas
terei todo cuidado
com os meus versos

Não falarei de negros
de revelação
de nada
que fale do povo
Serei totalmente apolítico
no versejar…
Falarei contritamente de Deus
do presidente da República
como poderes absolutos do homem
Nesse dia amor
Serei um grande F. da P.

5.
Toque de reunir

Vinde irmãos macumbeiros
Espíritas, Católicos, Ateus.
Vinde todos brasileiros.
Para a grande reunião.
Para combater a fome
Que mata a nossa nação

Vinde Maria Pulcheria
João de Deus, José Maria
Anicacio, Zé Pretinho
Para a grande reunião
Para combater a malária
Que mata a nossa nação

Vinde trapeiro, pedreiro,
Lavrador, arrumadeira,
Caixeiro, funcionário.
Combater tuberculose
Que mata a nossa nação

Vinde irmãos sambistas.
Da favela, da Mangueira
Do Salgueiro, Estácio de Sá.
Para a grande reunião.
Combater o analfabetismo
Que mata nossa nação

Vinde poetas, pintores,
Engenheiros, escritores,
Negociantes e médicos
Para a grande reunião
Combater o fascismo
Que mata nossa nação


*Para encontrar os poemas de Solano, procure os livros Poemas Antológicos e Canto Negro.


Por mais intimidade com nossa realidade
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André Gravatá

Foi em 2017 que redescobri o Brasil por meio de uma frase no início da peça Selvageria, do diretor Felipe Hirsch.

Uma frase escrita em 1500, para o rei de Portugal, de autoria de Pero Vaz de Caminha, o mesmo que conheci na escola, ainda no ensino fundamental, mas que naquela época pouco me marcou.

Depois de ressaltar a exuberância e riquezas naturais das terras brasileiras, Caminha diz: ''Porém o melhor fruto, que nela [nesta terra] se pode fazer, me parece que será salvar essa gente. E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza em ela deve lançar''.

''Salvar essa gente'', vejam só.

Nossa história começa a ser escrita com o anúncio de uma tragédia.

A peça de Hirsch, que esteve em cartaz em novembro e dezembro deste ano no SESC Vila Mariana, criada a partir de documentos e livros sobre o Brasil colecionados na Biblioteca Brasiliana de Guita e José Mindlin, além de pesquisa na Bibliographia Brasiliana, organizada por Rubens Borba de Moraes, era mais do que uma obra de teatro, era na verdade um chamado para nos espantarmos com o rastro de insanidade que nos trouxe até o presente. Um grito por mais intimidade com a nossa realidade.

fotos: Patrícia Cividanes

A cena com um trecho da Lei Saraiva, de 1881, por exemplo, estrondosa na sua violência por meio da atuação de Magali Biff, abria um espantoso inventário de brutalidades. Quando entrou em vigor, a lei instituiu o Título de Eleitor e proibiu que analfabetos e pobres pudessem votar, também conservando a inaptidão do voto para as mulheres. E diziam que essa medida faria as pessoas procurarem escolas para aprender a ler! A lógica persiste: negam os direitos e o povo que se vire, que se adapte.

Em outro documento apresentado na peça, de autoria da inglesa Mrs. Jemima Kindersley, reconhecida como a primeira mulher a escrever uma narrativa sobre o Brasil, há a seguinte anotação sobre sua passagem pela Bahia, em 1777: ''A corrupção no estado é naturalmente acompanhada pela corrupção das mentes das pessoas: quanto mais forem motivadas pelo medo, menos honradas serão; e quanto mais difícil for obter justiça, maior serão sua esperteza e desonestidade; até que cada homem olhe para o vizinho com ar de suspeita e desconfiança''.

A cada vez que vasculhamos nossas raízes, descobrimos que é antigo o projeto de país em que o medo e a desesperança são radicalmente melhor distribuídos do que a renda.

A montanha de lixo que compunha o cenário da peça Selvageria, estrutura criada por Daniela Thomas e Felipe Tassara, pano de fundo e chão do cortejo da história do Brasil, era também um aviso: o terreno onde pisamos é incerto demais, minado demais, poluído demais.

Os atores e atrizes subiam e desciam a montanha de lixo durante a peça, por vezes caindo entre os sacos, por vezes desaparecendo naquele amontoado como se também representassem parte dos resíduos para descarte.

Semelhante ao nosso chão brasileiro, que demanda de nós, hoje e em 2018 ainda mais, o máximo de intimidade com o terreno, o máximo de sensibilidade, o máximo de astúcia para ler a história, para ler as entrelinhas do mundo, para nos locomovermos entre tanta poluição, lamaçal e incerteza, para não afundarmos nos amontoados brutos, para não aceitarmos respostas medíocres diante de problemas complexos, para não aceitarmos respostas medíocres nem diante de problemas simples.


Chutar o balde é coisa do passado, agora é hora de chutar os banquinhos
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André Gravatá

O querido escritor Eduardo Galeano conta, n'O Livro dos Abraços, que havia um quartel onde soldados montavam guarda para um banquinho.

De geração em geração,
os oficiais repetiam a regra
e todos os soldados obedeciam:
ficavam ao lado do banquinho,
dia e noite,
todo dia.

Não questionavam.

Só repetiam.

A guarda para o banquinho era sagrada,
inevitável.

Galeano conta que ''… assim continuou sendo feito até que alguém, não sei qual general ou coronel, quis conhecer a ordem original''. Revirou os arquivos e depois de muito escavar o passado, descobriu que há mais de 30 anos um oficial tinha ordenado que se montasse guarda para um banquinho recém-pintado, para evitar que sentassem na tinta fresca.

Recontando hoje essa história, um momento se destacou diante dos meus olhos, profundamente: o exato instante em que alguém se pergunta se o que está sendo repetido até agora tem sentido. E se move para investigar o porquê da repetição, para quem sabe desconstruí-la.

Sem dúvidas uma parte bem relevante do nosso tempo é dedicada ao lado de banquinhos. E o pior, como somos capazes de sofisticar nossa cegueira, chegamos muitas vezes ao ponto de descobrir as justificativas absurdas para guardar certos banquinhos e mesmo assim, indignados, desgastados, insistimos na repetição do que já se provou vazio de sentido.

Estico aqui a metáfora de Galeano, com palavras que alargam a história para revelar o absurdo… Assim continuou sendo feito até que alguém, não sei qual general ou coronel, quis conhecer a ordem original. Revirou os arquivos e depois de muito escavar o passado, descobriu que há mais de 30 anos um oficial tinha ordenado que se montasse guarda para um banquinho recém-pintado, para evitar que sentassem em tinta fresca. Daí os soldados continuaram montando guarda para o banquinho. O hábito havia se enraizado tanto no corpo deles, que montar essa guarda fazia parte da identidade de cada um.

Ou seja,
não é suficiente descobrir
que fazer guarda para o banquinho
é desnecessário.
Despregar nossas raízes dos banquinhos,
que já se tornaram partes de nós,
é um ato poético/político,
nos arrancaria da areia movediça do passado
que insistimos em trazer para o presente.


Contra a intolerância, eu preciso ser outros
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André Gravatá

''Eu preciso ser Outros.''

Essa frase do poeta Manoel de Barros é um berro contra a intolerância e só hoje ela soou assim nos meus ouvidos.

Durante um encontro sobre literatura infantil, contei uma história que se emaranhou com o verso de Manoel. Compartilhei que um dia estava numa escola pública, durante um trabalho de pesquisa, e participei do almoço com as crianças. O lanche do dia era macarrão com almôndegas. Como sou vegetariano, sorrateiramente peguei meu prato sem carne nem molho.

Já na mesa, meu prato era o único de rosto pálido. Apenas macarrão. Um castelo de macarrão amarelo.

As crianças olharam para aquela refeição sem cor, franzindo-se inteiras, e se espantaram:

– Acabaram as almôndegas?

Respondi que não, rindo. Disse que eu não comia almôndegas. Me perguntaram o porquê. Respondi, como se lançasse uma bomba, que sou vegetariano.

Aí uma garota me disse uma frase que jamais, nunquinha mesmo, vou me esquecer:

– Como assim? Você é mesmo vegetariano? Vegetariano fala português?

Respondi que vegetariano fala português também, gargalhando muito.

Era tão simbólico aquele momento.

Nas entrelinhas,
aquela criança estava me dizendo o seguinte:
eu não tenho contato com vegetarianos
e por isso eles se parecem com seres de outro mundo,
não falam minha língua.

Perto da história vivida na escola, a frase do Manoel de Barros fez ainda mais sentido para mim. Para Manoel, a poesia o expande, o estica, permite que ele seja Outros – com letra maiúscula, como no livro do poeta. ''No escrever o menino viu que era capaz de ser noviça, monge ou mendigo ao mesmo tempo'', diz Manoel em outro poema.

No caso da pergunta da garota, havia leveza e vontade de aproximação. Mas em outros casos, a sensação de estranhamento com o outro se desdobra em intolerância, violência. Brincar de ser Outros, de ver o mundo de perspectivas que não são as nossas, seja por meio da poesia, da literatura ou de outras linguagens, é desautomatizar a percepção, é um ato tão poético quanto político num mundo em que cada um afirma o seu pensamento como o melhor e segue com suas certezas embaixo do braço, sólidas, perigosíssimas.


Um chamado para tirar as luvas das mãos
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André Gravatá

Para falar sobre protagonismo jovem, convido o querido educador Paulo Freire para a conversa.

No livro Pedagogia da Autonomia, quando Freire fala sobre a relação entre educação e a convicção de uma mudança possível no mundo, ele diz: “Não posso estar no mundo de luvas nas mãos, constatando apenas”. As luvas que Freire não quer nas mãos são aquelas que nos distanciam da realidade, que nos impedem de entrar em contato com a pele do mundo diretamente. Ele faz um chamado para tirarmos as luvas das mãos reforçando que a educação não é neutra, que educar tem relação direta com intervir na realidade e por isso se faz necessária a insistência em perguntas como:

Estudo em favor de quê?
Estudo contra quê?

Não é que Freire esteja convidando a gente a dividir o mundo em dois, a favor e contra, é um convite mais complexo: ele está dizendo que a educação precisa estar comprometida com a mudança possível do mundo e consciente do contexto da sua realidade atual. Esse comprometimento nos leva a possibilidades de respostas bem urgentes para as perguntas de Freire, pois posso estudar e educar contra o preconceito racial, contra a desigualdade, a favor da emancipação, a favor da arte, contra a miséria, contra o machismo, a favor de cidades educadoras, a favor de uma comunicação não-violenta, a favor da inclusão, a favor do contato com a natureza, contra o autoritarismo.

E se olhamos para os projetos mais potentes que crianças e jovens têm desenvolvido em suas escolas, por todo o Brasil, encontramos ações realizadas sem luvas nas mãos, a favor de mudanças significativas nos seus territórios.

Participo do Criativos da Escola, um projeto realizado pelo Instituto Alana, por meio do qual encorajamos ações de protagonismo infanto-juvenil pelo país inteiro e há exemplos bem inspiradores a favor de uma educação que intervêm na realidade. No Ceará, por exemplo, o projeto Cruzando os sertões da mata branca nasceu contra a falta de conhecimento sobre a Caatinga, bioma com mais de 40% de área devastada. Criaram um projeto de lei que foi aprovado na Câmara dos Vereadores, para fortalecer as políticas de valorização e preservação da Caatinga. Veja mais por aqui:

Outro projeto para prestar atenção: no Rio de Janeiro, um grupo de alunas criou um coletivo contra o machismo e o racismo, com palestras e rodas de conversa sobre empoderamento feminino, oficinas sobre cuidados com os cabelos, entre outras movimentações. Para conhecer mais detalhes, veja este vídeo:

Projetos assim acontecem sem luvas nas mãos, deixariam Paulo Freire contente e apontam mudanças possíveis. Reafirmam que a educação tem o comprometimento com a realidade atual.

Se você desenvolve projetos protagonizados por crianças e jovens ou mesmo for um jovem envolvido em ações assim, aproveite e se inscreva no Desafio Criativos da Escola, que está com um chamado aberto até dia 1 de outubro, à procura de histórias de protagonismo: http://criativosdaescola.com.br/


Conversas sobre morte e educação
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André Gravatá

Quando o assunto é morte, transbordam perguntas. A médica Ana Cláudia Quintana tem uma verdadeira coleção delas: ''Por que as pessoas morrem? A morte é saída? Prisão? Portal? Abismo? É entrega? É como no sonho?''. Ana é geriatra e especialista em cuidados paliativos, defende que para mudar a maneira como as pessoas pensam e encaram a finitude é fundamental que se dialogue sobre a morte nas escolas. Porque quanto mais refletirmos sobre o fim, mais lúcidos e até menos doentes viveremos.

Tratar do tema da morte dentro da escola não é levar respostas para os alunos, mas, pelo contrário, insistir que as perguntas mais essenciais são preciosas e conviver com elas, sem escondê-las ou mesmo ignorá-las, pode transformar o olhar ao longo do tempo. Ana Quintana se lembra de um trecho do livro Cartas a um jovem poeta, do escritor Rainer Maria Rilke, no qual ele insiste que devemos amar nossas perguntas como quartos fechados ou livros escritos num idioma desconhecido, que vão sendo abertos vagarosamente: ''Não busque por enquanto respostas que não lhe podem ser dadas, porque não as poderia viver. Pois trata-se precisamente de viver tudo. Viva por enquanto as perguntas. Talvez depois, aos poucos, sem que o perceba, num dia longínquo, consiga viver a resposta”.

Compartilho abaixo um trecho da minha conversa com Ana Quintana.

O que você percebeu ao falar com educadores sobre o tema da morte?
Há uma resistência grande para falar sobre a morte, ainda mais porque vou por um caminho que é ousado: converso sobre a morte dos próprios educadores, deixo claro que esse processo é comum a todos nós, que não adianta a gente se distanciar dele. E quanto menos falarmos sobre isso, menos preparados estaremos. Aí o educador não terá o que dizer quando morrer um aluno ou quando acontecer um suicídio, apenas mudará de assunto. Trazer a perspectiva da morte para perto é convidar o educador a perceber o quanto ele tem dificuldade de entrar em contato com o tema. E vai descobrir que o problema não é o tema, mas sim como ele lida com o assunto. Como ele vai educar para a morte, para o cuidado, se isso não está muito claro pra ele? Talvez se ele tiver consciência que tem problemas com isso, até consiga falar sobre a morte. Mas primeiro ele precisa olhar para esse tema.

Como você dialoga com quem se dispõe a olhar para esse tema?
As pessoas falam: eu tenho medo da morte. Eu pergunto: em relação à morte, do que você tem medo? Ah, tenho medo da dor, respondem. Então digo: se você tem medo da dor, não é medo da morte, é medo da dor. Aí dizem: tenho medo do depois, medo de ser punida. Então o medo é da punição? Quando você explora o medo da morte, abre o armário e vê que não tem monstro, mas muitas perguntas. Quando se chega num impasse, vem a reflexão: será que você está pronto para responder a essas perguntas agora? Continue com as perguntas, uma hora vem a resposta. E continue falando sobre a morte, porque a morte ilumina a vida, dá mais sentido, você amplia a importância da vida.

Como os educadores podem lidar melhor com esse assunto?
Se uma criança morre na sala, de leucemia, por exemplo, é importante conversar com as crianças sobre como foi viver com aquele amigo, do que vão lembrar, o que importou, o que foi legal viver com esse amigo… No processo de luto, quando você fortalece o que foi bom com aquele que foi, o vínculo se restabelece. Dar espaço para as crianças falarem pode fazer com que os educadores aprendam muito. Se elas não têm esse espaço, vão ficar com angústia e serão adultos que não conseguem falar sobre a morte. O adulto que não tem a coragem de chorar na frente de uma criança está tentando a toda hora validar um papel de poder. Mas quando você fala sobre a morte com uma criança, você assume a fragilidade do ser humano. E no espaço da vulnerabilidade mora a força do ser humano.

*

Disponibilizar-se para uma conversa mais íntima, como propõe Ana Quintana, não é cultivar um olhar empático, não se trata de se colocar no lugar do outro, mas sim de uma aproximação mais profunda. ''Estamos falando aqui de compaixão, de respeitar o lugar do outro'', comenta Ana. Uma das experiências em que ela propôs uma conversa assim, íntima e calorosa sobre a morte, foi num projeto chamado ''Educação para a morte'', realizado em Cajuru, no interior de São Paulo, e idealizado pelo médico Pessanha Júnior em parceria com uma escola pública e outra privada.

Ana foi convidada para conversar sobre a morte com jovens do ensino médio de uma escola pública. Pessanha conta que, quando ela chegou, havia cerca de 400 alunos à sua espera. O projeto, realizado desde 2011, com o apoio de educadores de filosofia e sociologia, realiza encontros semestrais que reúnem os alunos em um franco e aberto diálogo. ''Provoco discussões, questiono muito, tenho poucas respostas e muitas perguntas'', comenta Pessanha.

Os diálogos envolvem convidados, vídeos e contação de histórias. É um momento para se aproximar do tema da morte com uma perspectiva sensível, sutil. Com formação em medicina, Pessanha sentiu durante a faculdade que não se falava sobre como cuidar de quem não tem cura e, depois de algumas perdas de pessoas próximas, se interessou mais fortemente pelo tema da finitude. A sensação de incompletude na sua formação o levou a outros caminhos. ''Fiz então graduação em filosofia para me tornar um médico melhor'', ressalta.

Pessanha e Ana refletem sobre a morte para se tornarem mais conscientes da importância da vida que acontece aqui e agora. Aliás, no filme O Quarto do Filho, do diretor italiano Nanni Moretti, sugerido por Ana para abrir diálogos sobre a morte, a cena do fechamento do caixão do filho é espantosa e perturbadora na mente do pai, a morte é tão inesperada e crua que revela a consistência vulnerável da vida que se dá agora, exatamente agora.

''Se você for dar um abraço, abrace pra valer, pode ser o último'', sugere Pessanha. ''Pense nos cinco maiores problemas que você tem atualmente e reflita: no sábado que vem, se eu estiver morto, meus problemas atuais fazem a diferença?'', questiona Ana. É com provocações assim que ambos deixam claro que o tema da morte tem relação íntima com educação, porque está ligado ao modo como entramos em contato com a vida no cotidiano, se realmente estamos acordados para a natureza efêmera da realidade, para o momento presente. Falar sobre a morte não é só falar sobre ausência, mas sim um convite estrondoso por mais presença.


O que te nutre?
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André Gravatá

O que te nutre nestes tempos de tanta barbárie?

Caminhando pelas notícias de ontem, vejo que uma ação da polícia deixou 10 mortos no Pará, o episódio de disputa agrária mais violento desde o massacre de Eldorado do Carajás, em 1996. Há também notícias sobre o desastroso programa de Dória para a região conhecida como Cracolândia, no centro de São Paulo. Há fotos de 12 dos 22 mortos no atentado em Manchester, no Reino Unido. Na maioria dessas notícias os acontecimentos são narrados friamente, como se não merecessem espanto profundo, arrepios, indignação.

Desnutrimos nosso olhar a cada notícia que apenas reforça em nós a normalidade da barbárie. Desnutrimos nosso corpo a cada vez que agimos de maneira a reforçar no mundo a normalidade da violência. E espalhamos essa aridez a cada vez que compartilhamos pedaços de deserto com as outras pessoas.

Por isso é tão importante a pergunta “o que te nutre?”. Como disse o rapper Criolo durante uma visita à ocupação do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) num trecho da Av. Paulista, em fevereiro deste ano: “Cada um dá o que tem… Quem tem ódio, dá ódio porque nunca ensinaram outra coisa para essa pessoa”. Se só nos nutrirmos de frieza e ódio, compartilharemos frieza e ódio. O que te nutre? Indiferença? Ódio? Como nos nutrirmos para então também nutrirmos os outros?

Insisto na pergunta “o que te nutre?” porque ela é também o tema da Ciranda de Filmes deste ano. A Ciranda é uma mostra de cinema e vivências que insiste na relevância da arte como linguagem para nutrir a vida. É um convite para ganhar fôlego. A Ciranda vai até domingo, dia 28 de maio, com diversas atividades gratuitas, em SP.

Ontem participei como mediador de uma roda de conversa que reuniu o educador Reinaldo Nascimento, da pedagogia de emergência, a educadora Poty Poran, da Escola Estadual Indígena Krukutu e a Sonia Hirsch, jornalista e especialista em despertar nas pessoas o desejo de saúde. Durante o encontro, compartilhei a pergunta: O que hoje vemos como normal, mas que não deveríamos considerar normal de maneira nenhuma?

A Poran disse que até hoje há quem olhe para os indígenas como se fossem estrangeiros no Brasil, e isso é um absurdo. A Sonia falou sobre acharmos normal que as crianças comam salsicha e outros alimentos de mentira na merenda escolar. O Reinaldo mencionou o quanto nos acostumamos com crianças pedindo dinheiro na rua. Nessa conversa, nutrimos nosso espanto e nossa sensibilidade com histórias de vida, com a poesia que é vivida. E é de mais encontros assim que precisamos. De mais ouvidos abertos, de uma linguagem que nos aproxime.

Se cada um dá o que tem, o que você tem? O que você nutre e o que te nutre são perguntas parentes, que apontam a nossa responsabilidade em nos mantermos acordados, em não morrermos intoxicados pela indiferença.


Por mais objeção de consciência
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André Gravatá

Quem me avisou que a Organização das Nações Unidas (ONU) definiu 15 de maio como o dia do objetor de consciência foi a educadora Lia Diskin, cofundadora da Associação Palas Athena. Ela defende que a expressão “objeção de consciência” seja percebida de maneira ampla e relacionada, por exemplo, com a não aceitação de regras e situações diversas que perpetuam violências.

Quando conversamos sobre atos de objeção de consciência, Lia contou a história da tribo indiana dos bishnois, que resistiu a uma derrubada de árvores ordenada pelo rei da árida região onde moravam, no século 18, e esse ato infelizmente desencadeou tanto um massacre de centenas de bishnois como também uma posterior preservação das árvores em homenagem à coragem que demonstraram. Outro exemplo citado por Lia é a profunda não aceitação do extermínio de crianças que levou a polonesa Irena Sendler a salvar mais de 2500 crianças judias.

Sobre a história de Irena, dedico mais palavras, para olharmos de perto nos olhos dessa mestra em objeção de consciência. No livro A história de Irena Sendler – A mãe das crianças do holocausto, da polonesa Anna Mieszkowska, é possível acompanhar Irena durante a Segunda Guerra Mundial, arriscando sua vida pelas ruas do gueto de Varsóvia.

Em depoimento presente no livro, Irena nos conta que as crianças pequenas eram retiradas do gueto ''principalmente pelo edifício do tribunal de justiça localizado na rua Lezno. Esse prédio tinha duas entradas: uma do lado do gueto e a outra do lado ariano (na rua Ogrodowa). Algumas portas ficavam abertas e, graças à coragem dos zeladores, era possível sair do prédio com uma criança. As crianças também eram levadas para fora do gueto em carros de bombeiros, ambulâncias ou em bondes (…) Algumas crianças eram levadas para fora em sacos, caixas, cestos. Os bebês eram adormecidos e escondidos em caixas especiais com aberturas. Eram levados em ambulâncias (…) nas quais transportávamos para o gueto produtos de desinfecção…”.

Para se ter uma ideia da importância desse ato de objeção de consciência praticado por Irena e seus parceiros de resistência, compartilho as palavras de um educador polonês citado no livro, Feliks Tych, que afirma: a Segunda Guerra Mundial “havia se tornado a primeira guerra da história voltada conscientemente também contra as crianças. Exterminar as crianças tornou-se um dos objetivos de Hitler naquela guerra. Não se tratava de todas as crianças dos países ocupados, mas sim dos representantes de um grupo bem determinado: as crianças judias”. 

Enquanto lia o livro, imaginava a conversa entre um casal de judeus e Irena. Reticente, acuado, o casal entrega uma criança nas suas mãos, buscando garantias de sobrevivência do filho, sonhando com um fio de esperança. Que cena inimaginável! Mas aconteceu. Muitas vezes. 

Irena faleceu apenas aos 98 anos, em 2008. E hoje, no dia da objeção de consciência, o que Irena está tentando nos lembrar? O que suas ações dizem para nós? Elas afirmam que temos a capacidade de escolha mesmo nas situações mais trágicas e terríveis. E se dar conta disso é libertador e apavorante, pois essa percepção recupera a responsabilidade que carregamos – e frequentemente ignoramos – em cada ação cotidiana. Cada escolha que fazemos é a afirmação ou não de violências.

Tantos e tantos dias começamos listando mentalmente ou até anotando o que vamos fazer… Que tal hoje ser um dia para refletir sobre o que nossa consciência nos convoca a não fazer ou desobedecer?


Uma pessoa ocupada não tem tempo de se impressionar com o dia que amanhece?
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André Gravatá

O celular toca. A pessoa do outro lado da linha quer me convencer a assinar um jornal. Prefiro não. ''Como o senhor se informa?'', insiste. Aviso que estou lendo menos notícias. E falo uma verdade íntima que soa como brincadeira: uma das maneiras de me informar é abrir a janela pela manhã e contemplar o céu. 

A pessoa que ouve minha frase dá sinais de irritação, como se eu estivesse tirando sarro da cara dela. Ela me pergunta: ''Você trabalha?'', num tom que carrega mais palavras nas entrelinhas: Você é um vagabundo? Só assim para ter tempo de olhar as nuvens!

Prefiro não responder. Daí nos encaminhamos para o fim da conversa. Mas não findaram os ecos daquela ligação. Uma pessoa que trabalha não tem tempo para olhar pela janela? Muito estranho acharmos normal que uma pessoa ocupada não tenha disponibilidade de se impressionar com o dia que amanhece.

Compartilho essa lembrança para falar do filme Paterson, do diretor Jim Jarmusch, que está em cartaz e narra a história de um motorista de ônibus que é também poeta. Mesmo em um cotidiano bem repetitivo, o personagem percebe encantamento e espanto nas ruas observadas a partir da janela do ônibus, com olhos que tateiam o asfalto e as pessoas. Paterson percebe os encontros inesperados e novos de cada dia, como quando ouve o poema de uma adolescente com uma atenção extraordinária. 

A poesia faz parte da vida de Paterson como uma prática rotineira. Não aparece em um momento específico do dia, mas sim como um ar pra respirar onde quer que ele esteja.

Nossa cultura nos ensina a separar as experiências vividas em categorias: trabalho, diversão, estudos etc. Assim como numa escola, quando entramos e há o momento de aprender português. Soa um sinal sonoro e se abre a hora da geografia. Outro sinal, então chega a matemática. Interiorizamos a experiência de um mundo partido, fragmentado. O que vemos sempre são retalhos. É raro se deparar com um adulto como Paterson, capaz de brincar com seu tempo presente como uma criança, que ao observar uma caixa de fósforos consegue atravessá-la com o olhar e afirmar “aqui está o mais lindo fósforo do mundo / (…) / com uma cabeça roxa-escura granulada, tão contida e furiosa / e teimosamente pronta para entrar em chamas'' – o autor da maioria dos poemas presentes no filme é o norte-americano Ron Padgett.

Paterson vive na cidade de Paterson, New Jersey, nos EUA, uma sutileza que revela a proximidade entre a cidade e o personagem. E seus poemas são escritos num caderno secreto. A poesia dele é íntima, nasce com um fim em si mesma: a percepção poética no cotidiano é um estrondoso ato criador. Paterson me faz lembrar de uma frase do músico John Cage: “A arte obscureceu a diferença entre arte e vida. Deixemos agora a vida obscurecer a diferença entre vida e arte”.

Deixar a vida obscurecer a diferença entre vida e arte é um ato de resistência em um mundo onde a violência está banalizada e presente nos mais variados momentos do dia a dia. Laura, esposa de Paterson, também escreve sua poesia cotidiana, mas não tanto em palavras, a dela é principalmente visual. Até os cupcakes preparados por Laura são cuidadosamente decorados, repetindo um estilo de linhas em preto e branco que aparece também nas paredes da casa e nas suas roupas. O que está em evidência aqui é a não separação entre vida e arte. É o resgate da disposição para brincar, para abrir a janela pela manhã e presenciar um acontecimento significativo, misterioso, vital – afinal, não é impressionante que o dia amanheça? Isso não é de dar arrepios?


Não consigo me habituar
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André Gravatá

Dois amigos conversam num café. Um deles, chamado Bérenger, deixa claro: não se habitua com uma vida que se resume ao cansaço de tanto trabalhar. O amigo, Jean, é conformado: ''Todo mundo tem que se habituar''.

É durante a conversa que acontece um fato extraordinário: aparece um ruidoso rinoceronte por perto. Acelerado, violento, levanta poeira por onde passa. Deixa um rastro de perplexidade.

Os dois amigos não sabiam que rapidamente todas as pessoas ao redor também se transformariam em rinocerontes. Inclusive Jean, o defensor da normalidade. Apenas uma pessoa escapa da metamorfose: Bérenger. Percebemos a consciência desse personagem em carne viva quando compartilha seu dever mais radical a partir de então: ''… se opor aos rinocerontes, lucidamente, firmemente''.

Essa é a história de uma peça de teatro intitulada O Rinoceronte, escrita em 1959 pelo dramaturgo Eugène Ionesco. Os rinocerontes que correm pelo texto nos convidam a olhar no espelho para conferir o nível de deformação da nossa consciência. Conferir se a indiferença já transformou nossa linguagem em urro. Se nossa incapacidade de considerar o normal como absurdo nos fez acolher a transformação em animais violentos como uma dádiva ou inescapável aridez da maturidade.

A frase de Bérenger que mais representa o porquê de ele não ter se tornado um rinoceronte é ''não consigo me habituar''. Não consegue se habituar ao trabalho. Não consegue se habituar à uma aparência limpa, de barba feita, cabelo penteado. Não consegue se habituar com o barulho dos rinocerontes.

''Os mortos são mais numerosos que os vivos. O número deles aumenta e os vivos são raros'', comenta Bérenger no início da história. E os mortos, os rinocerontes, estão no poder. Há rinocerontes trabalhando para desmontar as conquistas trabalhistas. Há rinocerontes invadindo as escolas para silenciar professores. Há rinocerontes em fila nas redes sociais. Há rinocerontes disfarçados de bons sujeitos. Há quem se torne rinoceronte sem perceber, ludibriado pelo rinoceronte que se finge de bom sujeito.

Por outro lado, o ato de apontar para os rinocerontes também é acompanhado de um perigo: pode criar uma pretensão exagerada naqueles que não se reconhecem como rinocerontes. E aí quem não se sente rinoceronte acaba virando rinoceronte ao se plantar numa posição que reforça insistentemente o ódio ao outro.

Mas a reflexão que mais pulsa na peça e mais tem relação com nosso presente não é a divisão do mundo entre rinocerontes e humanos. A pergunta principal é o quanto somos capazes de nos habituar ou não com o estado de coisas ao nosso redor.

Sugiro um exercício breve: preste atenção nas situações vividas nesta semana em que você se sente movido a declarar intimamente e/ou publicamente que não consegue se habituar a elas. Não conseguir se habituar é o que pode garantir um pouco de sanidade nestes tempos em que o absurdo e a normalidade caminham tão próximos.